Capítulo 7 – A Lição do Presente – parte dois

Cinco –

    Max colocou o fone no gancho e o retirou no instante seguinte. Aguardou a ligação ser atendida até cair na caixa postal. Desligou sem deixar um recado. Uma nuança de preocupação, uma marca borrada em uma print, o gosto de saliva azeda na boca. Deveria ficar preocupado com ela?

    A pergunta, assim que proferida por sua mente, iniciou uma trajetória veloz até o topo de sua cabeça e lá ficou, pairando, acumulando novas dúvidas (onde ela estava? Sua reação irritada ao sair do apartamento havia passado?) – nuvem de raios e trovões descarregando sua eletricidade estática contra si.

    Deveria disparar uma ligação para a sogra? A leve sugestão de colocar a família da esposa em polvorosa o fez rejeitar sua pergunta. Nesse momento, a porta da sala foi aberta.

       – Chefe, não escutou eu bater?

       – O quê? – perguntou, encarando aturdido a secretária.

       – O boy da gráfica chegou. Quer entregar o pendrive pra ele?

O que mais era preciso para começar a trabalhar? Uma só atitude. Aceitar seu presente.

       – Toma – disse, jogando o pendrive com um movimento certeiro nas mãos de Ana.

       – Obrigado. – ela respondeu, sem sair do lugar, pensando se deveria contar o que sabia.

Max aguardou Ana sair.

       – Algo mais?

Ana continuou na entrada da sala, segurando o pendrive com uma expressão de “a droga dessa vida é tão difícil pra deixar isso sem uma resposta”.

       – Ela disse pra eu não dizer nada. Mas se você jurar que não vai dizer a ela que eu contei…

Ele sabia quem era ela. E, refreando a saudade, concordou instantaneamente com um gesto de cabeça.

       – Tina perguntou se você tava aqui e se tava bem.

       – E você respondeu?

A secretária sabia que essa não era a parte que interessava ao chefe.

       – Ela também disse que estava super-tranquila e que era pra você não ficar preocupado.

Max abriu um daqueles sorrisos otimistas que parecem ter saído do banho, limpos e renovados, há um segundo.

       – Com licença – a secretária disse, fechando a porta.

       – Ana.

Ela brecou o movimento.

       – Você é muito legal.

E foi a vez de Ana abrir o sorriso-toalha-enrolada-na-cabeça.

 

Seis –

    Um jovem de cabeça raspada aguardava na sala da diretoria, sentado no sofá de espera. Ele se levantou assim que viu Ana e disse “oi” de maneira educada.       

       – Já disse, não temos papel de fax, Gabriel. – Ana respondeu sem paciência.

Gabriel não pareceu satisfeito.

       – Melhora a gag, porque essa não foi engraçada.

       – Vai ter que se contentar com essa. Até porque é a mais pura verdade. – completou, caminhando na direção do boy da gráfica com um olhar excitado.

    O boy, um jovem cabeludo vestido com uma surrada jaqueta de couro, bebericava um copo de 200ml cheio de café. Ana entregou o pendrive para ele fazendo de conta não perceber seu olhar malicioso.

       – Se quer esvaziar a térmica de café dos funcionários, avisa primeiro. – disse tentando esconder uma atração puramente sexual no tom das suas palavras.

O boy encarou Ana.

       – Você é a última pessoa no mundo que eu gostaria de magoar.

    Gabriel, que observava a cena, atento, não agüentou essa.

       – O Gato de Botas. Ela se excita com o Gato de Botas! – afirmou a si mesmo, contrariado.

    O boy guardou o pendrive em um bolso da jaqueta de couro, dando um tapinha de “você tá protegido aqui, baby”.

       – Te ligo, pode deixar. – afirmou, dando as costas para Ana e saindo bebericando seu café, parecendo um rock star abandonando o palco.

    Ana olhou o boy sumir corredor à fora.

       – Ainda tô aqui – reclamou Gabriel, tentando esconder a mágoa por não ser o centro de atenção.

    Ana voltou-se para ele com um sorriso forçado.

    Max apareceu ao lado de Ana.

       – Tudo bem?

    Ana viu no chefe a chance de explicar a situação.

       – Ele tá dizendo que não tem mais papel no fax do salão, só que coloquei um rolo novo hoje pela manhã.

Max franziu os olhos, tentando acompanhar o assunto. O funcionário tentou se manter calmo. Não conseguiu. A lembrança do “gato de botas” era irritante. Ana continuou:

       – O que significa que não pode não ter mais papel no fax. – olhou para Max, tentando argumentar de uma forma racional: – O rolo dura mais de uma semana, entende Max?

    Max concordou com um aceno. Ana encarou o chefe.

       – O que posso fazer?

    Max encarou o funcionário.

       – Ela não pode fazer nada, Gab.

    Ana encarou Gabriel com ar de “assunto encerrado”.

    Gabriel indicou uma mesa no canto do salão, onde outros funcionários analisavam um certo objeto.

       – Você pode me acompanhar? Chegamos a um consenso.

       – Ótimo, vamos lá.

Max tomou a frente, saindo na direção da grande área onde os funcionários da casa trabalhavam. Ana afirmou em voz baixa:

       – Por que não são esses os nossos boys?

Gabriel voltou-se para a secretária.

       – Eu ouvi isso.

Ana ficou por um instante desarmada. Mas só por um instante:

       – Ora, o quê que tem?

Gabriel deu as costas e voltou a caminhar, melindrado.

       – Ela não saca. Faço o quê? Mando flores com a próxima frase? – comentou a si mesmo, sem conseguir segurar a decepção.

       – Ouvi isso.

A voz da secretária o fez perder o passo. Ana acompanhou com um olhar divertido o jovem avançar desajeitado para o salão e sussurrou:

       – Gosto de flores.

 

Sete –

    Max encontrou seus funcionários ao redor da mesa em um estado que chamava de “glorioso silêncio criativo”. Analisavam um novo produto com o olhar confiante de quem está quebrando a cabeça para solucionar um problema no qual sente necessidade genuína em resolver.

       – Qual a tua opinião? – perguntou Gabriel.

Max observou a luminária feita de papelão reciclado. Uma caixa leve e esbelta com a parte superior aberta nos quatro lados, por onde a lâmpada de LED jorrava sua luminosidade. Música pop indiana irradiava pelo ambiente e Max admirou as escalas atonais, sentindo a dançante leveza da melodia.

       – Muito bem senhores – afirmou, chamando para si a atenção – Essa será a luminária mais ecologicamente correta do mercado e, o que nem sempre acontece, será também a mais barata. Parabéns a todos.

    Gabriel foi abraçado pelos colegas. Roberto surgiu ao lado de Max, atento, curioso, irritado.

       – Porque não fomos chamados?

Max virou-se para o sócio.

       – Oi Roberto.

       – Esse projeto é importante. Eu deveria ter sido comunicado.

Max retirou o celular do bolso da calça, enquadrou Roberto e o novo produto e tirou uma foto.

       – Não entendi.

       – Você acaba de se tornar o protagonista, satisfeito?

Roberto mordeu a isca.

       – Ótimo. O primeiro registro oficial. Vou postar no meu twitter.

Max concordou.

       – Genial. – fez uma careta – Droga.

       – O que foi?

       – Por quê não pensei nisso antes?

Roberto observou Max.

       – Não teve graça.

       – O quê não teve graça?

       – O sarcasmo.

Gabriel interrompeu a conversa para dar um aperto de mão vigoroso em Max.

       – Obrigado pela confiança, Max.

Max sorriu confiante. Roberto se intrometeu.

       – Vocês estão de parabéns – disse, agarrando a mão de Gabriel. – virou-se para Max – Empresta o celular, por favor?

Max entregou o celular. Roberto se conectou na página do twitter e, nesse meio tempo, Ana passou exibindo seu troféu. Um rolo novo de papel de fax.

       – Mereço parabéns também?

Max sorriu. Roberto parou de postar e observou o rolo de papel de fax que Ana exibia, tendo um estranho dèjávu. Uma sensação indefinível de lembrança e confusão engolfou seus pensamentos. Em algum momento, não sabia definir a data ou o local, estava certo de que o aparelho de fax tivera uma importância absurda em sua vida. Quando?

    A resposta parecia dançar na sua língua. Então, após um instante, a lembrança desapareceu. Como se, na proximidade de ser desvendada, escapulisse para outro universo, levando a resposta com ela.

       – Roberto, você tá bem? – Max perguntou.

Roberto encarou Max com um olhar desligado.

       – Roberto, Terra chamando.

Roberto observava Ana trocando o rolo de papel no aparelho de fax. Virou-se para Max, com olhar abobado.

       – Desculpa, eu. Olha, com licença. Preciso resolver uns assuntos. – afirmou, caindo fora.

    E só mais tarde, bem mais tarde, Max descobriu que Roberto levara consigo seu celular. Mas então, outras situações, bem importantes e difíceis, já haviam se colocado em movimento.

 

Oito – 

    A lição do presente é uma e são várias. Porque o presente se transforma a cada instante, e para cada novo presente, há uma nova lição – um novo agir.

    Foi o que Max descobriu quando, no final da tarde, Tina ligou, anunciando, num tom alegre e jovial, que estava voltando para casa.

       – Estou quase chegando, pra dizer bem a verdade – ele a ouviu dizer.  

    Max lembrou Dele.

    Imaginar Tina sozinha no apartamento com Ele o deixou atordoado.

       – Você tá voltando pra casa, amor? – retrucou defensivamente – Que notícia maravilhosa – completou, quase engasgando de nervoso.

       – Tá tudo bem? Tua voz tá estranha.

Max sabia que, fosse lá a mentira que dissesse, seria melhor do que nenhuma mentira. Então mandou ver:

       – Tina, você pode escutar teu amorzinho? Pode?

Tina conhecia o marido:

       – Max, desembucha logo. O que você quer?

       – Teu amorzinho não acha uma boa ideia. – afirmou, sem vergonha de usar uma voz tão grudenta quanto melosa.

       – Desde quando chegar em casa não é uma boa ideia, amorzinho? – E, sem aguardar uma resposta, entabulou: – Preciso de um banho quente. Preciso muito de um banho quente.

Max se aprumou na cadeira – erguendo o dedo em riste, em posição desafiadora:

       – Tina, você está proibida de voltar para casa! Olha, te busco seja lá onde você estiver, prometo.

Escutou a risada sapeca de Tina.

       – Dentro de um táxi. Em movimento. Meio difícil cumprir a promessa, concorda? – a esposa explicou, achando muito divertido tudo aquilo.

       – No táxi? – murmurou para si – Olha, eu só quero. – estava entrando em desespero, uma zona perigosa para se estar quando se quer alguma coisa – Só quero tá no apartamento antes de você chegar. – afirmou, torcendo para que ela mordesse a isca – Entendeu? Antes amorzinho. Só pra.

       – Uma surpresa? – Tina interrompeu, com voz excitada – É isso que você tá dizendo? Que tem uma surpresa me esperando no apartamento?  

Max desabou na cadeira, aliviado. Ela mordera a isca.

       – Você é mesmo um amor. – a esposa completou, como se aquele obstáculo intransponível que era sua dúvida tivesse sido removido num passe de mágica.

       – Então, aceita o trato? Eu chego primeiro, confirmo se a surpresa chegou e depois ligo pra você.

Sua expressão de euforia foi arrancada pela resposta de Tina. Porque, afinal, mágica não existe:

       – Não. Nenhuma surpresa vai ser melhor do que um banho quente. Desculpa amor.

    Era o fim da ligação.

    Max olhou para o relógio. Depois, ergueu a cabeça para o teto da sala.

       – O que foi que eu fiz? – aguardou um instante a resposta. Baixou a cabeça, contrariado. Ergueu a cabeça outra vez, agora com humildade – Sério. Sério mesmo.

Capítulo 7 – A Lição do Presente

Um –

       – Você está atrasado – repreendeu Ana, enquanto aguardava Max entrar no hall de entrada do Escritório de Design.

Max encarou a secretária.

       – Jura?

       – Muuito atrasado, Max – ela respondeu, em um acesso de irritação.

Max concordou com um constrangido aceno de cabeça.

       – Você tá certa. Agora, pode mudar essa cara de “finalmente você resolveu aparecer depois de mil telefonemas”?  

       – O problema não sou eu, chefe. São teus sócios. – respondeu Ana, querendo colocar a questão em sua forma mais direta.

       – E um mega cliente, eu sei. Que deve tá se sentindo desrespeitado.

    Max passou para o corredor que levava à sala de reuniões do Escritório de Design experimentando uma dormência nas pernas. A sensação era próxima a de alguém que realizara um esforço físico brutal. Seu caminhar foi interrompido por uma pasta de documentos.

       – um instantinho. Assine nas três vias, o banco precisa disso hoje. Você esqueceu na sua mesa pela manhã.

Max segurou a caneta.

       – Não para de caminhar enquanto assina. E sobre a gráfica: tou aguardando o ok deles. O material tá pra chegar no meio da tarde.

    Max terminou de assinar a papelada e, erguendo a cabeça, observou Ana, a garota sagaz e falante, de vinte e dois anos, dona de um cabelo espevitado e dois piercings no nariz, que trabalhava há quase um ano como secretária da diretoria e que Max só lembrava como “a garota que tomou um porre na festa de Natal dos funcionários”.

    E que porre.

    Ana foi a autora de um strip-tease antológico sobre a mesa de leitura do Escritório (toda construída com madeira de demolição, robusta, charmosa) que teve como grand finale sua queda-após-um-tropeço com o sutiã parcialmente retirado.

       – Você é minha treinadora por acaso?

Ela retirou a pasta aberta das mãos de Max enquanto respondia:

       – Às vezes. Mas você me ouviu dizer isso? Não quero ser demitida por justa-causa.

    Max franziu a testa, analisando a resposta.

    Ana hesitou por um instante, baixando os olhos. Havia ido longe demais?

       – É um mercado em ascensão, fica tranquila – Max respondeu, piscando um olho.

Ana fechou a pasta e iniciou seu trajeto no sentido oposto ao do chefe. Levava junto com os documentos assinados um sorriso de cumplicidade.

 

Dois –

     Max deu a si mesmo dois segundos de preparação, no corredor em frente a porta da sala de reuniões. Inspirou e expirou de olhos fechados, sem formular palavra alguma, simplesmente encheu-se de ar e esvaziou-se de tudo. Então, exibindo um sorriso jovial e bastante autêntico, entrou.

       – Hermes! Quase não pego o senhor – exclamou, apertando a mão de um dos maiores clientes do Escritório, um senhor de sessenta e poucos anos, vigoroso, sempre vestindo ternos italianos.

       – Quase-quase mesmo… – afirmou Roberto, emanando raiva dos olhos.

       – Antes tarde do que nunca, não é isso o que diz o ditado? – retrucou Tuffon, cruzando seu olhar com Max, pleno de uma curiosidade um tanto decepcionada.

       – Um imprevisto, peço desculpas.

Hermes o interrompeu.

       – Ora, pedi explicações? Estamos muito bem por aqui. Não é mesmo, guris?

       – Concordo. Encaminhando os finalmentes. – Tuffon respondeu.

       – Os três me bajulam estando sempre presentes nas minhas visitas. Como se eu não soubesse que pequenos imprevistos fazem parte da rotina. – disse, com uma sabedoria de arrepiar.

    Por um instante, seus olhos se encontraram e Max sentiu aquela certeza vinda diretamente da Intuição. Uma certeza que sussurrou: “Ele sabe. Sabe de tudo”. Hermes pareceu notar que estava sendo observando por Max. Melhor. Hermes estava plenamente certo de que Max o observava e sorriu para o designer. No instante seguinte, Max disse para si que sua desconfiança era uma grande bobagem. Então abriu um sorrisão bobo.

       – Virei teu fã.

Hermes soltou uma risada agradável. Roberto interrompeu aquele momento de intimidade.

       – Se Max tivesse avisado antes…

    Hermes virou-se para Roberto, um tanto confuso. Estava assistindo a um duelo entre os sócios?

    Roberto percebeu que havia exposto de forma pouco sutil sua hostilidade para com Max e tentou remendar:

       – Você. Já. Visitou. Nossa. Hmmm… Sala de TI nova?

    Tuffon e Max sentiram um crescendo de alerta enquanto ouviam Roberto construir uma sentença supostamente lógica, palavra a palavra, buscando desastradamente mudar o foco de pensamento de Hermes.

    Hermes analisou Roberto um segundo. Deveria rebaixá-lo alguns pontos do seu conceito?

       – Fica para a próxima, Roberto.

 É. Não há dúvida. Acabara de rebaixar sua pontuação. Virou-se para Tuffon e Max:

       – Queridos. Preciso ir. 

    Os sócios levantaram em sinal de respeito e acompanharam o cliente até a saída, dizendo palavras gentis e engraçadas. Assim que o homem se viu dentro do elevador, Tuffon e Roberto voltaram sua atenção para Max.

       – Você pode dizer como foi que se atrasou tanto?

       – Ele não precisa responder e você sabe disso. Quem sabe menos café e mais calma na próxima reunião?

Roberto voltou-se para Tuffon.

       – Calma? É o faturamento do mês quase indo pro ralo.

       – Também não exagera. – replicou Max, já desconfiando se queria escapar mesmo de uma discussão.

       – Eu, exagerado? Sugiro você visitar nosso financeiro de vez em quando.

       – Isso não vai mais acontecer. Aliás isso nunca tinha acontecido. O que garante uma primeira vez com certa margem de.

    Roberto bufou ofendido e, conferindo às horas, deu às costas e desapareceu corredor afora. Tuffon aguardou Roberto se afastar e perguntou:

       – Foi algo relacionado com a Tina? Fiquei preocupado.

    Max encarou o sócio com aquele tipo de parcialidade totalmente positiva que temos com as pessoas das quais gostamos.

       – Tina está ótima. O obstetra diz que o plano de saúde é quem deveria pagar uma taxa mensal pra ela.

    Tuffon deu um sorriso satisfeito. Max fingiu socar o rosto do amigo, que esquivou com elegância.

    Os dois pararam seus movimentos quando viram Ana os aguardando impaciente.

       – Terminou a hora do recreio?

 

Três –

    Max entrou na sua sala e desfez o sorriso caloroso. Sentou-se na cadeira, colocou os cotovelos sobre a mesa, as mãos na testa e perguntou, sentindo estar perdendo a razão:

       – E agora?

A pergunta envolvia a formulação de duas questões:

E agora um: deveria ter contado a verdade – ou alguma parte da verdade para Tuffon?

E agora dois: como iria resolver a questão do defunto em seu apartamento?

 

    Respondeu a questão E agora um imaginando uma versão alternativa para o encontro recentíssimo com Tuffon:

       MAX – Tá tudo bem.

       TUFFON – Ótimo, pensei que fosse um problema relacionado à Tina.

       MAX – Merda, não tá nada bem…

Tuffon olharia preocupado para o amigo. Max juntaria coragem para dizer:

       MAX – Sabe aquela cena do cavalo na cama do Poderoso Chefão? Foi um negócio desses que aconteceu. Por isso atrasei.

    Provavelmente Tuffon responderia algo como:

       TUFFON – Cara, você acaba de ganhar o prêmio Novela Mexicana por Atuação Melodramática. Situações assim não existem.

       MAX – Existem. São até piores.

       TUFFON – Do quê você tá falando? Ce mora num apartamento. Quinto andar. Ninguém consegue levar um cavalo morto até o quinto andar de um prédio residencial.

       MAX – Eu sei, eu sei. Minha cama também não é daquele tamanho.

       TUFFON – Pois é.

       MAX – Tudo bem, esquece.

Max bateria no ombro do sócio de forma amigável e sairia na direção do escritório.

     Quanto à questão E agora dois:

    A pergunta se partia em um leque de novas dúvidas, ampliando sua insegurança. Em essência: não acreditava ter a maestria para unir em um todo coerente Tina, o Espírito, sua Missão, seu trabalho. “Antes de Buda atingir a Iluminação, debaixo da Árvore da Sabedoria, sentia-se mais ou menos assim, dessa forma como estou me sentindo?” – perguntou-se. E, como não soube responder, girou a confortável cadeira de trabalho até a janela e olhou para o céu.

    A última coisa que desejaria fazer era abrir sua agenda de compromissos. O mundo iria se contrair como um olho que se fecha. E, no entanto, com um gesto lento, Max estendeu o braço para trás e, apalpando sua mesa de trabalho, encontrou-a e a trouxe para junto de si. Olhos no céu, mãos segurando a agenda. A dualidade.

    Uma nuvem branca atravessou seu campo visual, flutuando com o que Max acreditou ser “presença” no meio do céu. Presença.

    Estar fazendo o que se deve estar fazendo.

    A nuvem ultrapassou o comprimento da janela. O céu voltou a ficar inteiramente azul.

    Para onde ela iria? Qual era seu destino? Max manteve o olhar no céu, lutando para que nenhum outro pensamento viesse lhe distrair. A nuvem vagaria até desmanchar-se pelo vento, continuando sua presença no mundo, agora em frações invisíveis, ou iria ao encontro da Grande Nuvem, a Mãe Nuvem que, como imã amoroso, unifica as nuvens dispersas em uma nuvem-intensidade?

    Recostou-se na cadeira e tirou os tênis debaixo da mesa, numa atitude incomum para o designer de estilo calmo e eficiente quando em seu trabalho. Bateu os olhos pela sala, observando com uma visão nova a aparência, cor e forma de cada móvel. Levantou-se e se aproximou da estante de livros de arte e design, analisando as lombadas como se fosse um leitor curioso em primeira visita a uma nova livraria.

    “Pronto” – disse a si mesmo – “Agora paro de reconhecer tudo o que tinha significado em minha vida. É esse o próximo passo? Tipo um Alzheimer existencial?”.

 

Quatro –

    Um instante se passou sem respostas. Max voltou a encarar a fileira de livros na estante. Fixou seu olhar em um grosso volume dedicado a Lucien Freud. Seus temas universais, as pessoas e suas vidas, retratados com tamanha força e estranheza sugeriam para Max, naquele momento, uma humanidade sem o conhecimento de suas possibilidades.

    Seus retratos. Se suas descrições fossem verdadeiras, exibiam uma embriaguez de visão, uma noite escura e sem lua que, tomada como verdade, refletia vidas que compensavam a falta de Iluminação com mais-imperfeições perfeitamente pintadas, solicitando ao espectador um olhar de abandono. Essa foi a escolha do artista. Seu ponto de vista. Sua genialidade.

    Seria a sua escolha? Veria o visitante com o olhar deformado e intenso de Lucien Freud?

    Max deu um tapinha amistoso na lombada do livro. Escutou-se dizer:

       – Chega. Por que não começar pelo começo? Começar pelo agora?

    E, como resposta à sua Lição do Presente – Começar pelo começo. Começar pelo Agora – o telefone sobre sua mesa de trabalho tocou.

    Pego de surpresa, com uma expressão de completa rendição – o olhar de “taí um negócio sincrônico pra caramba que eu não imaginei que podia acontecer”, tirou o telefone do gancho sem esforço algum.

       – Max, a gráfica não conseguiu abrir o arquivo. Tão pedindo um pendrive pra não ter erro. – a voz de Ana saiu urgente e profissional.

       – Tudo bem. Pode mandar.

       – O Tonteira saiu pra levar o filho ao médico.

       – Manda eles buscarem.

       – Já fiz isso.

       – Mais alguma coisa?

       – E como não? – Ana respondeu, num tom de galhofa.

       – Conta.

       – Você não vai gostar de saber.

       – Conta mesmo assim.

       – Faltou água em praticamente toda a zona leste da cidade. A sugestão do dia é: usar os banheiros com parcimônia.

       – A sugestão da casa acompanha fritas e refri médio?

       – Não. Só um balde.

       – Entendi. Acho que não vou sair da minha sala hoje.

       – Ótimo pedido, chefe. A casa agradece a preferência.

Capítulo 6 – Fazendo Contato – parte dois

Sete –

    Max afastou a cabeça para focar o texto.

    Assim que terminou a leitura, moveu a cabeça do papel para o rosto da emanação, apontando ora para um, ora para outro.

       – Você é mesmo um fantasma – foi tudo quando “o garoto” conseguiu arrancar de si.

    Aquilo ofendeu o visitante.

       – O mesmo erro de sempre – disse com ar cansado – Não sou fantasma, sou um espírito.

    Max tapou a boca com a mão, um medo ancestral do desconhecido se manifestando com toda a força. O visitante não pareceu impressionado:

       – Você também é um espírito, idiota. Pra quê tanto drama?

       – Eu?

       – Ô se é. Um espírito encarnado… Por baixo desse suor de medo todo, existe uma alma.

       – Existe?

       – Uma só sua, na verdade. Você mesmo, caso ainda não tenha sido apresentado – afirmou com certo interesse – A questão é a seguinte, escuta que vou dizer só uma vez – continuou, dando voltas sobre si mesmo, absorto – Uma alma encarnada em um corpo é um ser humano, como você, uma alma desencarnada é um Espírito, como eu. – olhou com seriedade para Max – E esse, meu caro, é a essência do Plano Divino. Como escreveu Kardec, por sinal.

    Max se ergueu num salto, excitado com a informação.

       – Então, então, então existe vida após a morte e existe uma lógica para a existência do homem? Então eu sei quem sou, de onde vim? Eu… eu… estou travando uma conversa racional com um ser de outro plano da existência? Daquele plano da existência que… Aquele plano que…

       – Sim, sim, sim – disse o Espírito, já entediado – Isso mesmo. Daquele plano. O Lado de Lá em pessoa – e, deslizando sem nenhum constrangimento até a estante da televisão, analisou o modem da TV a cabo e o DVD player.

       – Vem cá, você não tem nenhum game?

    Max, que continuava confuso, coçando a testa machucada e buscando os significados transcendentais de um encontro dessa magnitude (um verdadeiro magnitudo), deu um pulo de entusiasmo:

       – Um espírito que até joga game!

    O Espírito se voltou para ele, sem saco nenhum por tamanha excitação, e disse com um balançar de cabeça curto, daqueles que dizem “vamos adiante nessa história”:

       – É, quanto entusiasmo. Parece que acertou na loteria…

    Max caminhou na sua direção, desta vez sem medo algum e tão à vontade que a emanação achou prudente se afastar alguns metros.

       – Você não sabe o quanto acho incrível te conhecer! – afirmou – Alguém nessa – interrompeu sua fala um instante, buscando a palavra certa para não magoar o morto – … condição de existência…

    Estendeu sua mão para frente, agora sem nenhum constrangimento, em um gesto de amizade. O visitante não conseguiu conter sua admiração pelo gesto tresloucado.

       – Até que você não é um panaca completo – disse, estendendo a mão para Max, que avançou o braço lentamente, naquele que lhe parecia o maior momento da humanidade desde o primeiro passo de Neil Armstrong sobre a lua.

 

Oito –

    Max apertou com delicadeza a energia em forma de mão humana, surpreso ao sentir peso, densidade e aspereza naquilo. Ainda sob efeito atordoante da situação, apertou com sua força máxima o visitante, constatando que a matéria reagia de forma muito parecida com uma mão viva, se compactando levemente à pressão exercida pela sua força física, embora o Espírito aparentemente não sentisse a mudança de empenho.

    Era como se, para ele, um aperto de mão vindo de uma criança ou de um peso-pesado fossem a mesma coisa, feitos da mesma falta de gravidade.

    Terminado o cumprimento, olhou para sua mão, tentando ver qualquer diferença. Imaginava que ela sumiria em uma dobra espacial ou que iria se desprender do corpo a qualquer instante, vítima de uma doença desconhecida e certamente incurável.

    Como nada disso aconteceu, pediu com licença e foi até seu escritório. Queria respostas exatas. Aquele tipo de resposta.

 

Nove –

    Voltou com uma pilha de livros nos braços. Jogou os livros no sofá e iniciou a entrevista que, para todos os efeitos práticos, era semelhante aos testes Rorschach realizados por psicólogos.

    Segurou um livro atrás do outro, mostrando sua capa para o visitante e pedindo que emitisse opiniões sobre uma boa parcela de cada religião, corrente ou doutrina religiosa e/ou filosófica existentes no mundo. Fazia sempre a mesma pergunta: “Quais professavam a verdade e quais estavam equivocadas”.

    Havia sinceridade na sua atitude. Estava realmente tomado pelo desejo de conhecer a Verdade. Infelizmente, Max ainda desconhecia que o desejo-instantâneo não é o sentimento indicado quando se busca uma Verdade. Afinal, ou se merece (fazendo por merecer) vislumbrar pedacinhos da Verdade ou nada feito. Pouco importando o tamanho do desejo. Desejo é coisa humana, é ego. Verdade é Eterna, Próspera, Imutável. O oposto completo.

    O Espírito ficou em silêncio. Max passou a levantar os livros com rapidez, achando que haveria uma manifestação quando o livro certo fosse exibido.

    O Espírito interrompeu a gincana:

       – Você quer tudo entregue de bandeja? Esse não é o jeito certo.

       – Não?

       – Posso não ser dos mais inteligentes, aliás não sou mesmo. Mas de um negócio eu sei. A busca é sua, é pessoal e é necessária. Ninguém vai fazer o trabalho por você. E tem mais: não existe o certo quando estamos falando Dele. Quem somos nós pra imaginar o que Ele sabe? Dizer o que Ele aprova?

    Max engoliu em seco.

       – Você tá falando Dele – disse, apontando o dedo indicador para cima.

       – Ele Mesmo – confirmou.

    Max ficou em silêncio, pensando na vida.

       – Tudo o que merece existir e serve para alguma coisa é preservado. Se é correto, tudo leva ao Caminho, e todos os Caminhos levam a Ele. Entendeu?

    Max apontou outra vez o dedo para cima:

       – Ele?

       – Qual é seu problema? Ele. – reagiu num crescendo de irritação que escureceu seu corpo, apagando a luminosidade acinzentada que exalava de forma mais ou menos uniforme.

       – Você O conhece, por acaso?

       – Quem você pensa que eu sou? Algum figurão?

    O Espírito empurrou os livros para o chão.

       – Tem algo mais forte em casa? Sacanagem mesmo. – perguntou, voltando a circular pela sala – Você nem imagina como é ficar/

Parou em frente a uma fotografia emoldurada de Tina.

       – Que coisinha linda. Quem é essa mulher?

 

Dez –

    Max arrancou o porta-retratos da estante e o escondeu contra o corpo.

       – Sua esposa?

    Sem intenção alguma de responder a pergunta, olhou seu relógio. A magia, o encantamento daquele encontro desaparecera. Havia uma personalidade pouco confiável, para não dizer absolutamente grosseira, invadindo seu espaço. Era hora de voltar a colocar os pés no chão.

       – Olha, preciso trabalhar.

    O Espírito o analisou curioso e colocou as mãos na cintura, esperando uma explicação decente para aquela tentativa de abandono. Max entendeu & respondeu:

       – Pra quem é Espírito, você age muito igual aos humanos, principalmente nos defeitos.

    O visitante suspirou:

       – E eu não sei? Por quê  acha que estou aqui? – mostrando outra vez o bilhete para Max – Vi só? Você tem uma missão…

       – Uma missão, eu? Absurdo. – disse dono de si – Quem sou eu pra ensinar algo a… a… (sua indecisão beirava o cômico. Por fim, encontrou a forma apropriada de nomeá-lo) a você? Você por acaso tem um interesse especial em publicidade ou design ou filmes do Woody Allen ou sobre a Amazônia?

       – Do quê você tá falando?

Max achou melhor explicar com um exemplo.

       – Uma vez tentei ensinar um tio-avô a usar o cronômetro do seu relógio. Uma luzinha acendeu no relógio e ficou sem desligar por meses, foi horrível.

    Max desabou em uma cadeira, limpando com olhar confuso o suor da cara.

       – “Já sei, foram os cogumelos. Foi o rondele. Foi o cálice de vinho”. Te liga, comida italiana não é alucinógena.

    Max olhou assombrando para o visitante.

       – Você lê pensamentos?

       – Às vezes.

       – E o que eu estou pensando agora?

       – “O que eu fiz pra merecer esse castigo”

       – É, isso mesmo – respondeu com honestidade – Você tem a resposta?

       – Uma resposta? – o visitante ponderou, como se olhasse a questão sobre um prisma absolutamente novo – Já disse, não sou um dos figurões – afirmou, parecendo pouco à vontade por renovar sua insignificância.

    O celular de Max começou a tocar.

       – Olha, tão me chamando no escritório – disse, conferindo o número.

       – E eu, faço o quê?

       – Sei lá, vá dar uma volta na Redenção ou assistir a um treino do Internacional – pigarreou, agora tinha algo de interesse pro sujeito: – Ainda existem cinemas pornôs na Júlio de Castilhos, perto do Mercado Público, se é que me entende – e antes de ver qual a reação dele, uma nova ideia tomou corpo em sua mente – Ou então…

    Então, ele descobriu. Tinha um convite a fazer. Do tipo responsável por mudar completamente a vida. Max disse:

       – Me aguarda até a noite.

    O Espírito o encarou surpreso.

       – Aceitou a tarefa?

       – Hmm, só me aguarde até a noite. Detesto tomar decisões drásticas com o mundo desabando no trabalho.

       – Vai ser chato. – respondeu, olhando Max sair.

       – Vai. Muito chato. Melhor voltar de onde veio.

O Espírito encarou Max com um olhar de vou-precisar-explicar-tudo-de-novo-seu-otário?

       – Deixa pra lá – falou e bateu a porta, sentindo-se exausto.

Capítulo 6 – Fazendo Contato

Um –

    Estava de volta aquele lugar? O lugar para onde todos vão, desde que o mundo é mundo?

    Era noite. E havia fumaça demais impedindo sua visão. Ansioso, olhou para os lados, procurando coisas concretas para estabelecer o mínimo de contato com aquela realidade. Viu-se de pé, à beira de uma estrada. O capim alto do acostamento roçava suas pernas. Uma impressão carregada de passado o invadiu, roçando sua memória com o mesmo e lânguido movimento do capim contra seu corpo. Havia retornado aquela estrada que, por motivos ambivalentes, ele não gostava de lembrar.

 

Dois –

    Um choro de bebê rompeu o silêncio. Max tentou ver à sua frente o local de onde partia o lamento. A fumaça impedia uma definição visual do que quer que fosse e, após uma espera angustiante, uma luz fraca acendeu à sua esquerda.

    Como? Ele não conseguia formular uma resposta. A luz parecia ter sempre estado ali – ele é quem, de repente, passara a notá-la. O formato e a intensidade lembravam o farol de um carro.

    Max deu alguns passos na direção da fonte de luz e viu, saindo da fumaça, um carro acidentado. O carro estava tombado no meio da estrada, pára-brisas quebrado, carroceria retorcida. Um grosso risco de gasolina serpenteava indiferente pelo asfalto até o acostamento.

    O choro da criança diminuiu a intensidade, oscilando desoladamente. Max tentou se aproximar da cena do acidente, aflito, mas seus pés não obedeceram ao seu comando. Estava preso ao chão, incapaz de agir, como se o capim, em mudança de atitude drástica, tivesse enlaçado suas pernas, exigindo sua presença ali como mero e horrorizado espectador.

    O choro recomeçou, apertando seu coração de angústia. Um formigamento tomou seu corpo e se concentrou no estômago. Naquelas paragens a vida parecia sempre por um fio.  

    E somente quando o vulto já havia percorrido boa parte do caminho, vindo do trecho de estrada atrás do carro, escondido pela fumaça que subia num rolo negro e vigoroso para um céu pouco estrelado, que Max o percebeu.

 

Três –

    Max observou o vulto que se aproximava.

       – Ei! Ei! Você! Eles precisam de ajuda!– gritou, movendo a cabeça para os lados na tentativa de furar o bloqueio da fumaça.

    O vulto parou de caminhar, como que respondendo seu apelo. Usava um chapéu na cabeça e vestia um casaco comprido, que cobria seu corpo até próximo aos joelhos. O vulto cambaleou um instante, até alcançar novamente o equilíbrio. Max tornou a berrar para o homem, chamando-lhe atenção para o fato de que havia uma criança dentro daquele carro precisando de ajuda imediata. O homem ergueu uma garrafa e bebeu um longe gole, depois olhou para o carro, sem saber o que deveria fazer. Em momento algum pareceu dar-se conta da presença do jovem aflito no lado oposto da estrada.

    O choro desesperado da criança aumentava a sensação de perda e desolação até níveis insuportáveis naquele mundo-após-o-mundo.

 

Quatro –

    Acordou com o som do seu próprio berro, deitado no sofá da sala de estar.

    Sentia-se estonteado, com uma nuvem de informações desconexas envolvendo seu cérebro, uma confusão de emoções tecendo uma rede de vislumbres fragmentários, batendo e voltando dentro de si ao acaso. Lembranças de vidas que jamais vivera quebravam em ondas na areia de sua consciência, para no instante seguinte recuarem, mesclando-se, desaparecendo em um Todo-que-era-o-Oceano, deixando como única prova de sua existência fugaz a umidade salgada que escurecia a areia antes brilhante – e que surpresa sentir essa areia batida pelas ondas como areia mais sábia mesmo fosca, como se o resultado da experiência houvesse não só modificado o brilho inocente da areia em contato com o mar, mas da mesma forma a fizesse dona de qualidades superiores.

     O teto da sala girava acima de sua cabeça e Max afirmou mentalmente, em pânico por não saber-se areia ou oceano, “Vou vomitar. Vomitar e desprender isso tudo pra fora de mim”.

    O jorro de vômito espalhou-se sobre seu corpo. Sua garganta foi tomada por uma acidez tão ardida que Max imaginou ter lançado ácido antigo e há muito desnecessário. Gemeu, não querendo ver o vômito escuro que pingava do seu peito e escorria do sofá até o assoalho.

    Seu corpo inteiro latejava e sua testa doía de forma absurda. Max apalpou a cabeça, sentindo algo quentinho. E isso também lhe pareceu desconfortavelmente estranho.    Como podia estar deitado no sofá se não lembrava ter saído da cozinha? Tirou de cima da cabeça a compressa de água quente. Mil desconfianças invadiram seus pensamentos. Então sorriu. Só havia uma explicação para seu status atual de paciente em repouso. Tina o encontrara caído e fizera os primeiros socorros.

       – Amor? – perguntou ansioso, sentindo a acidez no estômago diminuir.

    Sentiu a presença dela e abriu um sorriso deliciado, pronto para rever as feições delicadas da esposa. O Espírito apareceu à sua frente.

       – Amor? Tá falando com quem?

 

Cinco –

    O rosto de Max se contorceu até formar uma carranca de pavor. De sua garganta saiu um berro lancinante, infantil. E prolongado. Quando o berro acabou, por pura falta de fôlego – e apenas por causa disso -, o visitante tomou a palavra.

       – Que tal se acalmar, meu chapa? Já tá ficando chato.

Max olhou para os lados, acuado e, vendo não ter nenhuma alternativa, realizou sua primeira comunicação consciente com o mundo dos mortos.

       – Como posso me acalmar? – perguntou mais a si mesmo do que a ele.

    O Espírito retrucou com ferocidade:

       – E o papel explicando tudo, não recebeu?

       – Papel? Quepa/ Claro que não! – reagiu, sentando no sofá e lançando uma olhadela cheia de nojo ao seu redor.

    O telefone sem fio começou a tocar, interrompendo de forma quase teatral a contenda. Max olhou com ar confuso para a estante onde ficava o aparelho, remoendo palavras na boca e realmente sem saber se deveria atendê-lo.

       – Melhor não atender – a voz do visitante saiu seca e lúcida, parecia até que dava o conselho mais sábio de todos os tempos ao dono da casa.

Max olhou para ele, sem saber se deveria mesmo aceitar a recomendação.

       – Porque cê ainda não explicou porra nenhuma. – completou.

    Max voltou a olhar para o aparelho. Sabia que seu botão de “parem o mundo que eu quero descer” estava ali, piscando e trimtrimnindo há alguns passos de distância. Se fosse rápido, talvez conseguisse berrar por socorro. Um instante, porém, é o instante e, perdido, some para sempre, tendo se oferecido aos homens como alegria ou como tristeza.

    Quando o telefone parou de chamar, o Espírito voltou-se outra vez para o dono da casa, satisfeito por ter a chance de recomeçar o assunto.

    Foi interrompido pelo acionamento – rouco e ronronante – de uma impressora. Olhou ao redor da sala, curioso.

       – Onde?

       – Onde o quê?

       – Cadê a porra da impressora?

       – Que impressora?

       – Ce não tá escutando?

       – Escutando o quê?

       – O barulhinho.

       – Quê barulhinho?

       – De impressão.

Max tentou escutar algo.

       – Vêm dali – o Espírito apontou uma gaveta da estante.

    Pela segunda vez naquele dia, a Mensagem iniciou sua descida rumo ao mundo dos vivos.

 

Seis –

    Max olhou para a gaveta.

       – Uma impressora dentro da gaveta onde guardo os controles remotos?

    O Espírito fez uma cara de “quem se importa?”. Estava de bom-humor. Finalmente algo do seu interesse estava sendo providenciado pelo universo.

    Deslizou até a gaveta e aguardou o-que-quer-que-fosse num estado absolutamente zen, da mesma forma que um cliente fica enquanto aguarda na fila da padaria.

    Então abriu um sorriso de pão-fresquinho-na-área. E abriu a gaveta.

    Max observou, curioso, a manifestação colocar a mão dentro da gaveta e, com um puxão decidido, trazer ao mundo-terra uma folha de papel.

    Após um instante de leitura atenta, soltou um gemido satisfeito e voltou todo cheio de si para perto de Max, balançando a Mensagem que segurava entre os dedos.

    Max se encolheu no sofá, agarrando uma almofada como escudo protetor.

       – Não chega perto de mim, tá ouvindo seu maluco do inferno? Cai fora! Qual é? Não tem impressora naquela gaveta!

O Espírito apontou para a almofada que Max esmagava contra o peito e observou:

       – Vai emporcalhar a almofada – dando a entender que o mundo perderia um pouco de seu brilho caso isso acontecesse.

    Max, surpreso, largou a almofada em um pedaço ainda limpo do sofá. O espírito enfiou a Mensagem diante do seu nariz.

       – O quê você pode fazer por mim, garoto?

Capítulo 5 – “Alguém aí… Sério?”

Um –

    Max bebericou o café com o eco da batida da porta reverberando em sua mente. Ele aguardou o eco dissolver-se em um infinito de ondas, até o instante quando o som iniciou sua jornada cósmica e interior, mudando sua forma, de onda para luz, e novamente para onda – distanciando-se enquanto se aproximava, dissolvendo-se em seu cérebro e espalhando-se pelo ambiente, escapando da matéria, quasar de energia e intenção.

    Quando obteve a certeza do fim, bebeu novo gole de café. As lembranças de seus compromissos iniciaram a marcha de retorno ao seu ego, uma multidão de ordens, recomendações e perorações, tik-tik-tik, marchando em direção às suas angústias com o objetivo de ordená-las ou, caso não fosse possível, jogar todas elas para debaixo do tapete. Era uma sensação beirando o surreal e Max lembrou das cartas-de-baralho-soldado de Alice no País das Maravilhas.

    Pousou a xícara na mesa, espreguiçando o corpo enquanto se levantava. Corpo e mente voltavam a existir em desacordo, pedindo atenção ininterrupta – seus velhos conhecidos sinais conflituosos em forma de vontades incompatíveis. E esse foi o momento da segunda manifestação.

    A cortina decorativa da janela da cozinha balançou súbita e violentamente. Max se virou assustado para olhar o que estava acontecendo. A cortina dardejava. Esticava para frente, vítima de algum vendaval misterioso. Porque havia um poderoso impedimento para que a cortina balançasse: a janela. Ela estava fechada.

    E, como em uma sucessão de eventos em cadeia, no segundo posterior Max sentiu a presença de alguém junto a si. Olhou para os lados, quase farejando, tamanha a necessidade de identificar quem ou o quê era seu companheiro de café. A cortina voltou a seu estado imóvel. E o silêncio que se seguiu foi suficiente para Max sentir-se acuado por sua própria respiração.

    “Sair. Do. Apartamento. Agora!” – as palavras formando linhas de estáticas em seus pensamentos. Abandonar o barco. A tempestade fora do manual havia sido uma experiência além do limite para o despreparado marinheiro.

 

Dois –

    Max correu para a sala de estar, catalogando os lugares onde normalmente deixavam o molho de chaves extra. Quando lembrou do cinzeiro decorativo sobre o aparador, um sorriso de alívio o pegou de jeito. As coisas estavam se resolvendo, pensou, achando que talvez nenhuma ação drástica fosse necessária. Afinal, a solução estava ali, próxima, visível, presente. O que era não-presente (caso existisse mesmo uma manifestação dentro do apartamento) é que deveria se preocupar a partir de então. Max virara o jogo a seu favor.

    Somos ótimos em olhar o primeiro rochedo no oceano e o tomar pelo continente inteiro.

    O ruído na cozinha foi assustador. Max girou o corpo em posição de alerta máximo, após o barulho de vidro se espatifando fazer-se presente. Aguardava “a coisa” invadir a sala de estar. Esperou um, dois, três segundos. Dissolvendo o menor espaço possível do seu campo visual, focado na entrada da cozinha, procurou as chaves do apartamento dentro do cinzeiro outra vez. Elas estavam dentro do cinzeiro. Que alegria dentro do pavor rever as chaves. Seu desejo era poder juntar o dedão e o indicador de uma mão e chamá-las para junto de si como chamamos um cachorrinho. “Vem, chavezinha, tchuc-tchuc, vêm pro papai”.

    Momentos depois, entrou na cozinha, chaves na mão, pronto para escapar.

 

Três –

    Viu o que restou do copo sobre o assoalho. Respirou. Olhou ao redor, sentindo-se presente, dono do seu bom-senso. Por mais que acreditasse que algo acontecera, intuía que, seja lá o que fosse – nomearia depois a experiência – não estava mais presente.

       – Prooonto. Não tem nada na cozinha. Só cacos de vidro espalhados pelo chão – exclamou, como se fossem as frases finais de um poema magnífico.

    Lavou o rosto no banheiro da suíte, satisfeito por ter aquela água toda saindo em um jato reconfortante. Uma cadeira começou a ser arrastada em algum canto do apartamento. Max estancou em frente a pia – escova de dente na boca, baba-com-pasta escorrendo queixo abaixo.

    No instante seguinte, se aproximava do lugar onde supôs escutar a manifestação sobrenatural.

       – Tem alguém aí? – perguntou, olhando o interior da sala de estar, ainda segurando a escova de dentes na boca.

    Sentiu-se um tolo por ter feito a pergunta em voz alta. “Tudo bem”, disse a si mesmo, “estou falando sozinho dentro de casa. Mas, depois de tudo o que aconteceu, a tolice não seria desprezar tudo o que aconteceu?”. Ficou matutando a ideia por um tempo, procurando alinhar emoções, pensamentos e atitudes.

    “Quando Buda atingiu a Iluminação, debaixo da Árvore da Sabedoria, foi mais ou menos assim, dessa forma que estou me sentindo?” – perguntou a si mesmo, respirando aceleradamente.

    E, como que respondendo, o Espírito se materializou.

 

Quatro –

       – Você pode me chamar de Alguém, se quiser.

    Era grandalhão, tinha peito largo e braços fortes e um pouco curtos. Sua cabeça era grande, sua testa, alta. O cabelo, curto e escuro, dava-lhe um aspecto marcial, daquele tipo de pessoa facilmente irritável. O rosto tinha maxilares proeminentes, como o de um cão de guarda e, para completar, um sorriso zombeteiro enfeava mais do que enfeitava. Era o sorriso de alguém dado à fanfarronice – o tipo de sujeito que não consegue segurar uma piada de mau-gosto quando vê algo que chama sua atenção.

    E o detalhe que piorava tudo: vestia-se como um empresário de banda new age da década de 80. Calças largas, camisa com os botões abertos e por cima um pavoroso blazer moderninho cheio de vértices de tecido em ângulos retos nos ombros e cotovelos. Essa figura surgiu exatamente na forma de uma aparição clássica, ectoplasmática, numa coloração etérea cinza-leitosa.

        Suas pernas acabavam em uma matéria esfumaçada escura, que deixava os pés indistinguíveis. Assim, parecia flutuar pelo espaço – livre da gravidade. Só os olhos permaneciam impenetráveis. A matéria cinza e esfumaçada de que era feito se concentrava nessa região, fazendo com que seus olhos não refletissem nenhum sentimento ou sinal de bondade.

    A emanação se aproximou de Max, que deu dois passos para trás. O Espírito avançou mais um pouco, Max se afastou o dobro disso. A Manifestação fez um ar decepcionado.

       – Pelo jeito você não recebeu o aviso.

 

Cinco –

    Max arregalou os olhos e deixou a escova de dentes cair sobre o tapete. Sabia que sua única chance era correr para a porta de entrada da cozinha, escapando para a realidade. Tomado de um frenesi que não tinha nada de corajoso, iniciou sua fuga. Urrando como um gladiador, passou ao lado da emanação e se refugiou na cozinha.

    Agarrou, torceu e retorceu a maçaneta da porta, tentando abri-la. Infelizmente, apavorado o suficiente para deixar escapar um detalhe: a porta continuava chaveada. Olhou a emanação acinzentada flutuando para dentro da cozinha. A “coisa” disse:

       – Qual é garoto, a gente precisa resolver uma pendência.

    Imaginar qual assunto teria pendente com um fantasma foi demais para Max. O que poderia ser? Que tipo de atrocidade inominável teria feito para receber esse castigo? Enfiou a chave na fechadura, girou, empurrou, forçou, todas essas ações ao mesmo tempo. A chave quebrou lá dentro.

    Se ainda existisse uma única gota de bom-senso em sua consciência, Max poderia muito bem ter se perguntado “E agora?”. Mas não havia mais nada remotamente semelhante a bom-senso em seu córtex cerebral. O que havia era um pavor tão primário que o fez girar indeciso e acuado como um animal e decidir em meia fração de segundo que deveria se esconder no quartinho dos fundos do apartamento, rezando para que o visitante do além não percebesse. Conseguiria?

    Max jamais obteve a resposta.

 

Seis –

    Em seu desvario de fuga, trombou fortemente contra o marco da porta. Matéria contra matéria liberando uma grande energia de choque. Max desabou inconsciente no chão do apartamento.

    E o Espírito, que havia se mantido em silêncio, observando a capacidade de empreender uma fuga decente do seu oponente, se aproximou em um deslizar todo cheio de si, olhando decepcionado para Max e comentando sabe-se Deus a quem:

       – É esse aí o sujeito que vai auxiliar no meu crescimento espiritual…? Paspalhão…